Por Gustavo Ferreira

Doutor Bruno achou que seria um plantão como outro qualquer. Final de ano, chuvas torrenciais alagando algumas vias de Belo Horizonte.

O delegado, um homem negro, de quarenta anos, alto, corpo esguio, cabelos aparados e barba por fazer, olhava pela janela da Delegacia de Homicídios do Departamento de Investigação, o piscar de luzinhas de natal a distância.

Lá embaixo, na Avenida Antônio Carlos, um mendigo gritava aos transeuntes.

Devia ser mais um craqueiro, pensou o delegado.

O inspetor João irrompeu sala adentro. Calvo e sem barbas, um corpo pequeno, atarracado, musculoso. João não aparentava ter os seus cinquenta e cinco anos. Além do físico conservado, aquele cinquentão tinha energia de um garoto.

– Chefe, a Cepolc ligou. Acharam um corpo.

– Droga, achei que poderia terminar de assistir aquele seriado na Netflix.

– Ih, chefe, perdendo tempo com seriado dos anos oitenta ainda?

– Sou nostálgico.

– Nostálgico, hahaha, que coisa de boiola.

– Uhm, e você, que fica assistindo cantor sertanejo com cabelinho de topete e calça jeans enfiada no rego?

– Uai, é pra pegar as garotas. Mulher gosta.

– Sei. Manda a perícia ir lá recolher o corpo, depois eu instauro um inquérito.

– Oh chefe, acho melhor ir lá.

– Sabe quantos homicídios tem em Belo Horizonte por dia? E suicídios? E abortos?  Se eu for em todos não tenho tempo de investigar nada, nem de fazer o APF dos presos que me forem trazidos.

– Mas esse foi…diferente. A imprensa tá lá. Rádio Itatiaia, Balanço Geral.

O inspetor citou diversos meios de comunicação, alguns sérios, outros nem tanto. O que importava era o furo da notícia.

– Por que? Morreu alguma celebridade, algum político?

– Não, mas o crime foi dentro de uma igreja. Você sabe, essa imprensa sensacionalista, isso vai estampar na primeira página.

– É, ainda mais nessa época. Que bosta, ter que sair nessa chuva.

– Então nós vamos?

– Vamos. Arruma a viatura.

– Precisa de colete, armamento pesado?

– Cara, não estamos indo pra guerra, é só um corpo sem vida.

– Mas e se no caminho a gente precisar atender…

– Deixa de bobeira, numa chuva dessas só aquele viciado lá fora. Tá todo mundo em casa.

– Certo, chefe.

João saiu correndo. Bruno pensou em gritar para ele fechar a porta, mas não foi possível.

O delegado olhou o mendigo lá fora. A chuva caía fina e constante. Gotículas se desprendiam da vidraça e escorriam até o parapeito.

O mendigo olhou para o segundo andar do prédio, para a janela, para o delegado. Ele gritava e gesticulava.

– Chefe, tá tudo bem?

Bruno tomou um susto, não percebeu que João havia voltado.

– Já arrumou tudo?

– Uai, chefe, tem mais de dez minutos que estou te esperando.

– Então vamos.

Bruno achou estranho. Não percebeu o tempo passar. Ele pegou sua pistola, colocou no coldre, vestiu o blazer.

A dupla saiu da sala, percorreram o corredor até o lance de escadas e desceram em silêncio.

Lá embaixo, no plantão, alguns agentes recebiam ocorrências de policiais militares. Furtos, roubos, usuários de droga. O plantão da delegacia estava um caos e, para piorar, com a chuva que caía lá fora e as janelas fechadas, o cheiro ali no plantão era quase insuportável para quem não estava acostumado.

Para os policiais, no entanto, o cotidiano os deixou insensíveis aos odores mundanos. Cachaça, mau hálito, suor, sangue, urina, fezes.

As mazelas da humanidade eram desaguadas na delegacia. Cabia aos policiais tentarem manter o mínimo de dignidade, o mínimo de civilidade em uma sociedade corrupta e decadente. Eles eram a última garantia da lei e da ordem. E o cotidiano os torturava psicologicamente, por condições insalubres, subumanas de serviço. Isso os deixava mais duros e insensíveis. Só assim para suportar conviver diuturnamente com tanta maldade e não sucumbir a ela.

O atarracado inspetor passou empurrando as pessoas no caminho, entre testemunhas, vítimas, parentes, policiais. Bruno seguia seu companheiro.

Lá fora, na viatura Blazer da polícia, a agente Olívia aguardava na direção. Seus longos cabelos castanho-escuro estavam presos a um boné preto. Aliás, preto era a cor preferida da agente. Camisa, calça, coturno, cinto. A roupa ajustada ao corpo mostrava o cuidado que a policial tinha com sua saúde. Entretanto sua feminilidade não atrapalhava em absolutamente nada no desempenho profissional.

– Boa noite, doutor.

– O que tem de boa? Olha essa chuva que não pára.

– Que isso doutor, logo o senhor entrará de férias. É bom ter um caso mais complicado para o tempo passar mais rápido.

– Por falar em rápido, segue rápido para o local. Já sabe onde é?

– Sim, senhor. Paróquia Nossa Senhora das Dores, ali no bairro Floresta.

Inspetor e agente continuaram falando, mas Bruno não estava prestando atenção. Olhando a chuva pela janela, o delegado encarou o mendigo.

O mendigo retribuiu o olhar e disse:

– Nos quais o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus.

Louco, pensou o delegado. Uma chuva dessa e o homem lá, sem se importar com o frio, a água.

A viatura seguiu a avenida Antônio Carlos, percorreu as vias decadentes do complexo da Lagoinha, fazendo o retorno para chegar ao bairro Floresta. Ali, no emaranhado de viadutos, às margens do poluído ribeirão Arrudas, um mar de craqueiros, viciados, pedintes, se escondia da chuva. Aqui e ali uma fogueira tentava aplacar o frio incomum para aquela época do ano.

Chuva e vento.

Uma enxurrada de lama e lixo escorria da rua Célio de Castro e da rua Pouso Alegre em direção ao ribeirão.

Era possível ver enormes ratazanas revirando sacos de lixo que se prendiam nas vias. Uma ou outra mais ousada nadava em poças à procura dos restos da luxúria humana, desperdiçados ali.

Era o caos.

E Bruno estava achando aquele fardo pesado demais.

Quando voltou a si, a viatura já estava estacionando na rua Silva Jardim.

Algumas viaturas da PM, alguns veículos da imprensa.

Os giroflex lançavam uma melancólica luz sobre a paisagem já perturbada.

A paróquia Nossa Senhora das Dores foi fundada em vinte e cinco de dezembro de 1927. Com uma construção imponente, em estilo neoclássico, mais especificamente com características neogóticas, possui torre central, sobre o adro, assinalando a verticalidade da construção, aproximando-a do céu e demonstrando a proximidade com Deus.

Sua Nave e transepto são sustentados por feixes de colunas, portas e janelas com vergas em arcos ogivais. Janelas em grande quantidade, leveza e harmonia dos traços, garantindo um aspecto mais leve ao templo.

Com a fachada em tons de amarelo, o símbolo do bairro floresta, com sua torre de aproximadamente 61 metros, a igreja contrasta com as edificações ao seu redor. As belas paredes amarelas da capela serviam de um pequeno alívio para o caos urbano.

Não naquela noite.

Os repórteres, protegidos por capas de chuva e sombrinhas, ao verem as inscrições DPV na viatura, indicando a proteção à vida, amontoaram-se ao redor do delegado, querendo um furo de notícia.

– Sem declarações. Sem declarações. Acabei de chegar, com licença.

Bruno passou a fita zebrada, cumprimentando os militares que isolaram o local, e entrou na construção. Ele estava encharcado, mesmo tendo ficado pouco tempo sob as intempéries daquele verdadeiro dilúvio que caía sobre a cidade.

No interior do templo, as filas de banco de madeira estavam posicionadas normalmente, liberando uma passagem que conduzia da porta ao altar. Um filete de sangue percorria todo o caminho.

A agente Olívia teve uma súbita ânsia de vômito. Ela se virou para fora, expelindo suco gástrico, sem perceber que um malicioso fotógrafo capturava a imagem.

Quando os policiais entraram, o delegado ordenou que a porta fosse fechada. Já havia exposição demais.

Dois peritos, Vander e Henrique, fotografavam o ambiente, acompanhados do sargento responsável pelo registro.

Com aval dos peritos, sinalizando que o deslocamento não iria atrapalhar nos trabalhos, Bruno seguiu o filete de sangue até o altar.

A cena era grotesca. Diante do altar, uma mulher estava deitada nua. Braços e pernas abertos. Sua barriga cortada de um lado a outro, com as vísceras removidas e depositadas no lado oposto de sua cabeça. Sangue circulava o local.

Henrique se aproximou e disse:

– É, doutor. Já tinha visto algo assim?

– Boa noite. Não. Em Igreja não. Teve aquele homicídio no aglomerado da Serra, mas aquilo foi disputa do tráfico.

– É. Engraçado, as vestes da vítima estavam depositadas ali no confessionário. Bolsa, documentos, dinheiro.

– Qual o nome?

– Diana Gonçalves Dias. Trinta e quatro anos.

– Tem certeza que é ela?

– Olha aqui a CNH. A foto é quase idêntica. O aparelho celular dela também está aqui.

– Certo. Vamos ver os últimos contatos, conversa de WhatsApp, perfil do Facebook.

– Já tem algum palpite?

– Isso tá com cara de noivo corno.

– É, foi o que o Vander disse. Vamos ver se tem alguma coisa no celular.

– Se vocês puderem agilizar. A imprensa vai querer saber novidades.

– É, nós vimos o movimento lá fora.

– Já vou indo, então, fazer um despacho de instauração do inquérito.

– É, só mais uma coisa, doutor. Isso aqui foi encontrado ao redor do corpo.

O perito estendeu ao delegado um saco plástico transparente. Em seu interior, cinco esferas amorfas. O delegado olhou contra a luz.

– O que é isso? Seis ovos?

– Parece que eram sete. Um na cabeça, um em cada mão, um em cada pé, um sobre o ventre partido e o último onde as vísceras foram depositadas.

– E qual estava quebrado?

– O da cabeça.

O delegado virou-se para o militar.

– O Sargento Melo.

– O doutor, boa noite. Tô no QAP.

– Boa noite. Você mexeu no corpo?

– Não, doutor. Só isolamos o local e chamamos a perícia. Tem que preservar o local do crime, sabe como é.

– Vocês viram alguém aqui?

– Positivo. Só o capelão. Ele quem nos chamou. Disse que tinha ouvido um grito, uns barulhos estranhos, uma cantoria.

– E onde está o capelão?

– Tá lá fora com o Cabo Amaral, na viatura.

– Pode levá-lo para a delegacia. Vou ouvi-lo agora.

– Positivo, doutor. Acionando a tecla do rádio, o sargento comunicou à viatura para iniciar o deslocamento.

O delegado despediu-se dos peritos e chamou sua equipe. Olívia estava visivelmente transtornada, pálida, e ainda com enjoo. Até João sentiu um arrepio, um incômodo com a cena.

Na saída, a chuva havia diminuído um pouco. Agora, apenas uma fina garoa caía.

Os repórteres cercaram o delegado. Um deles adiantou-se:

– Doutor, só uma palavrinha. Quem é a vítima? É o padre? Nossos ouvintes querem saber. É o padre? Os fiéis querem saber. Já tem algum suspeito? Parece que o padre fez um duro sermão na missa hoje mais cedo sobre o capitalismo sobrepujando o espírito natalino esse ano. Foi algum Papai Noel que se vingou do padre?

O delegado ficava revoltado com a imprensa já colocando palavras em sua boca, com os jornais criando notícias ao invés de informar o espectador. A imprensa às vezes ajudava a propagar o caos, em um mundo já caótico.

Aquele repórter continuou fazendo conjecturas, mas o delegado não prestava atenção às palavras. Ao final, apenas disse:

– Uma coisa você acertou. O capitalismo está sobrepujando o espírito do natal.

Bruno entrou na viatura, deixando os repórteres falando sozinhos.

Na viatura, ele disse:

– Tudo bem, Olívia?

– Só estou meio indisposta. Vai passar.

– Ok, então. João, chegando à delegacia, pesquisa tudo sobre Diana Gonçalves Dias. Esse nome não me é estranho. Olha Facebook, LinkedIn, Badoo. Olha até Orkut.

– Oh chefe, isso nem existe mais. Tá parecendo mais velho que eu, hehehe.

O retorno à delegacia foi em silêncio.

Chegando lá, o tumulto na entrada continuava: parentes de presos, parentes de pessoas desaparecidas, viaturas policiais conduzindo presos ao plantão para lavratura de flagrante, vítimas, testemunhas. Enfim, todo o lado obscuro dos crimes antes de desaguarem na calmaria do judiciário. Ali era o para-choque da justiça.

O delegado entrou, chamou a escrivã, e foi para a sala.

– Alessandra, faz um favor.

– Pois não, doutor?

– Pode instaurar o inquérito, fazer os despachos de praxe. Ofício ao IML e ao Instituto de Criminalística, requisitando prioridade nas perícias.

– Certo. Mais alguma coisa?

– O João vai levantar parentes e conhecidos da vítima. Assim que ele te passar, já intima todo mundo. Ah, e já vamos ouvir o padre.

A escrivão preparou a sala, enquanto Bruno fazia uma entrevista prévia com o sacerdote.

– Padre Tarcísio, não é?

– Isso doutor. O senhor tem água. A boca tá seca, tô meio nervoso.

– Não precisa ficar nervoso não, padre. Toma, bebe aí. Isso aqui é igual confessionário.

– Mas no confessionário nós só intermediamos o contato do fiel com Deus. Na verdade, nem isso, só permitimos ao fiel um lugar para jogar para fora seus pecados.

– Pois então, padre. Jogue seus pecados para fora, digo, me conta o que aconteceu.

– Eu…é…por onde eu começo?

– Do jeito que o senhor se lembrar.

– Tá…deixa eu ver. Eu fiz a última celebração do dia. Acho que a maioria, senão todos os presentes eram pessoas que frequentam a paróquia. Terminada a missa, os missionários me auxiliaram a fechar a igreja. Eu saí para comer alguma coisa. Estava chovendo muito. Peguei um guarda-chuva, fui na avenida do Contorno mesmo, ali no Mac Donald´s.

-Aquele da Contorno com rua Curvelo?

– Isso, aquele da esquina. Lanchei. A chuva caia forte. De lá, voltei para a igreja. Meu quarto fica atrás da sacristia. entrei, comecei minhas preces vespertinas. A luz piscou. Achei que era coisa da chuva, da Cemig. O senhor sabe, quando chove em Belo Horizonte temos alguns transtornos.

– Transtorno? Belo Horizonte sempre é um caos.

– Não diga isso, meu filho. Olhe as bênçãos do Senhor à nossa volta.

– Bênção? Padre, dilaceraram uma mulher na sua igreja como se fosse em um açougue.

– Mas isso não é obra do Senhor, doutor. Isso é obra do Inimigo.

– Inimigo? Que Inimigo?

– Ora, doutor, o anjo caído. O diabo. O demônio. Chame como quiser, eu só o chamo de o mal.

– E porque Deus não interveio, então?

– Não interveio? Ele nos deu seu próprio filho para nos livrar do pecado. Nós é quem escolhemos o mal, doutor, não Ele.

– Padre, não gozo da mesma fé que o senhor.

– Está vendo? Nós é quem escolhemos. O senhor pode fazer o bem, ou pode fazer o mal. O senhor pode adorar a Deus ou negá-lo. A escolha é sua.

– Voltando ao caso, padre, e aí, o que aconteceu.

– Bem…eu senti um desconforto, uma inquietação. Achei que era a batatinha frita atacando meu estômago, mas não. E a luz piscava. Ai foi quando eu ouvi um grito. Um grito de dor, de pânico. Como ali perto tem uma hamburgueria perto da igreja, um bar na outra esquina antes do banco e um posto de gasolina na Contorno com a rua Raul Mendes, onde jovens costumam beber e fazer arruaça, pensei que eram apenas baderneiros. Mas aí ouvi barulhos.

– Barulhos? Que tipo?

– Ah…bem…no início eu ouvi…não me lembro direito, a chuva atrapalhava. Eu ouvi. Ah, vozes, cantos, gemidos. Olha, só de lembrar arrepio todo.

O padre estendeu o braço direito, mostrando ao delegado os pêlos eriçados.

– Um canto?

– É, uma ladainha, um cântico. Não sei bem as palavras. A chuva nessa hora estava forte, e eu confesso que fiquei com medo. Achei que estavam roubando a igreja.

– Tá, quantas vozes?

– Não sei bem. Certamente uma voz feminina.

Feminina? Não ajudava em muita coisa, afinal, a vítima era uma mulher, podia ser a voz dela. Bruno disse:

– E então?

– Bem, eu liguei pro 190, chamei a polícia. O cântico parou. Agora que me lembro. O cântico parou, e a luz também parou de piscar. Saí do quarto devagar, passei pela sacristia. Dei a volta na Igreja, aí vi que a porta estava aberta. Tive certeza que era um roubo. Entrei para ver se as imagens estavam na igreja, acendi a luz. Foi aí que vi o corpo caído no chão.

– Uhm, sei. E não viu ninguém saindo?

– Não. Se tivesse alguém ali acha que não veria de jeito nenhum? Aquela imagem horrível…acho que não vou conseguir dormir tão cedo.

– Por acaso você conhece alguma Diana Gonçalves Dias?

– Não me recordo, doutor.

– Olha essa identidade. Reconhece essa mulher?

– Não. É a vítima?

– Sim. Ela não frequentava sua arquidiocese?

– Não me recordo dela nos cultos. Tem uma ala jovem na igreja, e somos muito próximos.

– E o que você acha que aconteceu lá?

– Doutor, acho que isso não vai te ajudar na investigação, mas quer saber minha opinião?

– Sim.

– Isso é obra do Inimigo.

– De novo, padre?

– Está vendo? Ele soube aguardar o momento certo para começar a atuar. Quase ninguém mais crê.

– Padre, estamos no século XXI. Acho que algumas coisas a ciência…

– Ciência nunca desmistificou a fé. Elas andam lado a lado. O que ocorre é que as pessoas acham que ciência pode substituir a fé. Não pode.

– E isso é obra do Inimigo? Então onde está esse Inimigo?

– Embora perceba o sarcasmo em vossa fala, doutor, estou me vendo na obrigação de tentar trazer luz à sua turva visão. E, considerando que o senhor é o especialista, me diga, então, por que um crime desses aconteceu na igreja agora?

– É o que quero descobrir.

– Não, você quer descobrir a pessoa ou pessoas que mataram. O motivo eu já disse, é obra do Inimigo, é obra do mal.

– E onde em prendo esse mal?

– Não me tenha por tolo, doutor. Nem Nosso Senhor prende o mal. Nós o evitamos fazendo o bem. Ainda ri? Olhe a sua volta, olhe o que o homem fez e faz ao mundo? Olhe o que o homem faz a ele mesmo? E a troco de que? Políticos corruptos, dependentes de drogas, pais que abandonam filhos, filhos que matam pais, crianças sendo abusadas e sendo submetidas às mais diversas formas de violência, homens querendo ser mulher, mulheres querendo ser homem, adultos se comportando como crianças e crianças sendo exigidas como adultos. Um ambiente sem ordem não seria o melhor ambiente para se atacar?

– Padre, até faz sentido o que o senhor está dizendo. Vamos fazer o seguinte, você cuida desse mal, eu cuido do assassino.

– Não, doutor. Você cuida do assassino, nós cuidamos do mal. A salvação tem que ser buscada por cada um, e por todos nós.

– Tudo bem. Minha escrivã colherá seu termo. Não precisa contar a ela sobre esse mal, se atenha apenas aos fatos.

– Rezarei por vosso trabalho, doutor. Embora o crime tenha ocorrido em minha capela, acho que o alvo é o senhor, que terá de viver com isso.

– É o meu trabalho.

-É o seu fardo. Se precisar de algo, sabe onde me encontrar.

O padre foi à sala da escrivã, enquanto Bruno ficou pensando. Que doideira, o padre estava surtando. Crimes violentos ocorrem a qualquer tempo. Desde que o mundo é mundo.

Desde Caim e Abel – e lá estava o delegado se lembrando das aulas de catecismo, dos filmes bíblicos e de suas idas à igreja ainda adolescente. Há quanto tempo ele não ia na igreja? Há quanto tempo ele não rezava?

Ele olhou para a janela. O céu escuro lá fora. Uma fina garoa persistia em molhar tudo.

E o mendigo.

O maltrapilho estava olhando para o delegado.

Os dois se encararam por instantes, até que o mendigo fez um sinal da cruz para o padre e subiu a avenida Antônio Carlos em direção ao IAPI.

– Com certeza está indo comprar uma pedra de craque.

– O que disse, chefe?

Bruno se assustou. O inspetor entrou na sala sem que ele ouvisse.

– O senhor não ouviu o que eu disse?

– Você disse alguma coisa?

– Sim, achei o nome da moça. O senhor acha que ela era uma viciada?

– Não, porque?

– Uai, o senhor disse que ela ia comprar uma pedra de craque…

– Não, não disse isso sobre ela, estava falando daquele andarilho.

– Qual?

O delegado e o inspetor olhavam para fora. Tirando o tumulto na entrada do prédio e os poucos carros que passavam pela avenida aquela hora, não havia nada. Nenhuma alma viva circulava por ali.

– Ah, deixa pra lá. Só um viciado. O que achou dela.

– Pois é chefe, o senhor tava certo. A gente conhecia ela mesmo. Ela foi ouvida aqui, há um tempo. Inquérito 66. Artigo um, dois, sete.

– Aborto qualificado, sério?

– É, chefe. Ela trabalhava na clínica de aborto. Era a secretária. Recebia as pacientes.

– Pois é, e a Justiça, o que deu o inquérito? Eu não lembro.

– A juíza trancou a ação penal, a defesa disse que havia provas ilícitas, que elas foram ouvidas sob coação pelo senhor, e a magistrada acatou. Processo arquivado.

– Ah, lembrei. A Olivia tinha acabado de chegar, né?

– Isso mesmo, ela deu um soco na médica.

– Pois é. Isso que deu a nulidade?

– Foi. A defesa alegou tortura, e a juíza invalidou todo o processo.

Bruno se lembrou do caso. Teve uma repercussão na mídia. Ativistas favoráveis ao aborto protestaram na porta da delegacia, querendo a liberação da prática do aborto. Programas televisivos matinais e vespertinos discutiram o assunto frivolamente entre artistas e outras pseudo celebridades, enquanto a apresentadora fritava um ovo ou fazia um bolo.

Como pessoas com argumentos tão rasos, que pouco ou nada estudaram sobre assuntos graves e polêmicos, formavam opinião de tantas outras?

Comunicação em massa. Essa era a receita.

O delegado queria suas férias.

– Ok. O que mais você descobriu da vítima?

– Nada demais. De lá pra cá, depois que o caso saiu da mídia, parece que ela arrumou um trabalho em um hospital. Sem multas de trânsito, sem outros processos. No Facebook ela está toda sorridente em uma praia. Nenhuma mensagem de ódio, nenhuma ameaça, nada. Pelo menos aparentemente. Aliás, tem um monte de gente com aquele rostinho de arco-íris dizendo que ela era linda, guerreira, superou as coisas e tal.

– É, vamos esperar os peritos. Ver o que tem no celular.

– Mandei a Olivia com o Pedro irem na casa dela, achar algum parente, ver se alguém reconhece o corpo no IML. Oh chefe, será que alguma mulher mutilada no aborto atentou contra a vida dela?

– Não sei. Pode ser. Tô nem ai.

– Hehehe.

– Qual a graça, João?

– Uai, chefe…ela trabalhava com aborto, matando bebês. Se alguém que era contrário à prática de aborto a matou, é um contrassenso, não é mesmo? Defende a vida de fetos e mata a vida de vivos?

– Só tem jeito de “matar a vida” de quem tá vivo, né, o cabeção. E é contrassenso também defender o aborto, mas ser contra pena de morte.

– Uai, chefe, você entendeu.

– Bom, inquérito instaurado, mais alguma prioridade?

– Parece que não. O mesmo de sempre. Um pessoal agredido, um pessoal roubado, uns acidentes de carro. Aquele caos do plantão.

– Tá. Se acontecer algo importante me chama. Senão, recebe as ocorrências.

– Certo, chefe.

O inspetor deixou a sala. Bruno olhou novamente a janela.

Nada.

Nenhum sinal do mendigo. Com certeza já devia estar fumando outra pedra…


Sobre o autor:

Gustavo de Castro Ferreira (1981) é o autor de “BHZOMBIE “, ” O RITUAL “, “PINDORAMA, terra de aventuras “, coautor  de “SETE DESTINOS “, além de possuir outras obras na área das ciências sociais.

Membro da Academia Mineira de Letras João Guimarães Rosa  possui bacharelado em Direito e Ciências Militares.

Natural de em Belo Horizonte,  Gustavo descobriu na sua cidade a inspiração ideal para catalisar sua criatividade.

One thought on “O ritual

Deixe uma resposta para Gustavo Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *