OS DEMÔNIOS QUE HABITAM EM MIM

Por Marlos Quintanilha



– Felipa, qual é o problema?

– Você sabe que eu não gosto desse tipo de programa, Tábata.

– Gente – bufei sentada no sofá.

– Sempre que vou ao circo volto passando mal. Você sabe disso.

– Vamos ao parque então.

– Podemos ficar em casa?

– Eu estarei lá com você.

– Eu nunca superei aquele episódio de quando era criança e fiquei presa na sala de espelhos. 

Felipa e eu nos conhecemos ainda na escola. Viramos grandes amigas e depois fomos para a faculdade. Lá ela conheceu o Raul e eles começaram a namorar. Nós três andávamos juntos para todos os lados. As pessoas pensavam que formávamos um trisal, mas era só amizade mesmo. Bom, eu também pensava isso até que descobri que era apaixonada pela Felipa.

– Hei, vamos sair um pouco – falei olhando em seus olhos.

– Não sei se devemos. Não sei se podemos.

– Como não devemos? Como não podemos?

– Você sabe.

– Sim! E por isso mesmo devemos ir.

– Ele pode estar lá – Felipa falou desviando os olhos dos meus.

Felipa e Raul estavam juntos há mais de dois anos e ele resolveu pedi-la em casamento no réveillon. Ele havia pedido minha ajuda para organizar tudo e tal. Eu avisei que seria arriscado, pois Felipa não gostava de surpresas. Ele disse que seria impossível ela dizer não àquele pedido, pois ele era irresistível.

Dito e feito. Em plena ceia de ano novo com a casa entupida de convidados de seus pais o pedido foi feito e para a surpresa de todos, exceto a minha, Felipa disse um lindo e sonoro não. Vale lembrar que minha “torcida contra” tem seus motivos. Apesar de terem uma relação estável, Raul e Felipa já haviam enfrentado situações bastante complicadas.

Eu já conversara com ela e orientado para que colocasse um ponto final na relação depois que ele deu um tapa em seu rosto numa festa onde um menino passou a mão na bunda dela. Era uma questão de segurança, bom senso e, sobretudo, amor próprio. Eles abafaram o caso e resolveram continuar juntos. Depois vieram as traições. Então resolvi desistir de abrir os olhos dela pois ao final quem sairia como a má influência seria eu. Preferi ficar por perto para protegê-la em silêncio. 

– Mesmo que ele esteja por lá. Isso não importa. Você precisa continuar a viver, Felipa. Seu namoro acabou, sua vida não – falei beijando suas mãos que começavam a tremer.

– Queria ser forte como você é.

– Você não está sozinha.

– Então vamos. Já faz tempo que não saio desde que terminamos.

– Isso aí.

Nos aprontamos e fomos para o parque de diversões que acabara de chegar à cidade. Eu sempre fui apaixonada por esse tipo de coisas, principalmente pelo trem do terror. Mesmo que Felipa estivesse fragilizada seria bom que ela saísse um pouco e esquecesse tudo o que passou nas mãos daquele crápula.

Chegamos ao parque de mãos dadas. Isso não foi planejado. Ao sairmos do carro nossas mãos se entrelaçaram automaticamente. Era um sábado quente e o local estava bem movimentado. Vimos alguns rostos familiares e continuamos andando pelo parque. Felipa parecia outra pessoa. Estava sorridente. Vez por outra sua mão apertava a minha um pouco mais forte e ela me olhava com aquela profundidade que só ela tinha.

Em dado momento paramos para lanchar e enquanto aguardávamos na fila eu vi Raul se aproximando. 

– Seja forte – falei segurando suas mãos enquanto ele se aproximava.  .

– Olha, olha. As sapatas resolveram sair do armário – Raul proferiu as palavras com tanto ódio que Felipa deixou uma lágrima escapar de tanto que ficou mexida.

– Larga de ser babaca, Raul. Nos deixe em paz se não chamo a polícia – vociferei pra ele.

– Aposto que estão juntas agora. Era o que você queria – ele atirou as palavras em mim e aproximou-se mais.

– Se você chegar mais perto eu juro que não respondo por mim – falei com autoridade.

Ele se afastou com seu grupo de amigos e nós continuamos na fila. Felipa estava bastante nervosa e eu insisti para que ela se acalmasse e que mantivéssemos nosso programa. Ela concordou.

– Que tal um dose de adrenalina para esquecer esse episódio – perguntei tentando afastar minha tensão.

– Querer eu não quero. Mas precisamos – ela falou tentando sorrir.

– Então vamos ao trem do terror?

– Não é muita adrenalina?

– Está querendo correr sua safada?

– Claro que não.

– Sei.

– Bora lá encarar o trem então.

Fizemos nosso lanche e logo fomos para o trem. Mesmo que ela tentasse demonstrar força, às vezes percebia seus olhares ao redor buscando o Raul.

Entramos no sétimo carro numa fila de dez. Havia apenas mais um carro ocupado à nossa frente. Felipa me olhou com medo e eu a encorajei a sentar.

– Odeio ficar sem meu celular. Sinto-me nua – falou Felipa.

– Não é permitido gravar lá dentro. Por isso nossos celulares são recolhidos na recepção.

– Desnecessário isso. Se acontecer alguma coisa? Como pedimos ajuda? – Felipa olhava ansiosa para os lados. – Isso está vazio né.

– É até melhor assim.

– Melhor?

– Assim quase ninguém vai testemunhar nossos gritos.

– Bom! Olhando por esse lado, realmente é melhor.

Sentamos e dentro de poucos minutos as luzes apagaram e o trem partiu rumo ao desconhecido. Entramos e logo fomos engolidos por uma névoa que dificultava a visão. De repente tudo ficou silencioso e escuro.

– Essa merda está me deixando apavorada, Tábata.

– Pra isso pagamos o ingresso, cabeçuda.

O carro seguia o caminho esguio. Assim que fizemos a primeira curva uma revoada de morcegos veio em nossa direção fazendo com que todos abaixassem rapidamente.

– Inferno. Eu odeio esses bichos – gritei histérica.

Felipa olhava sem reação para uma criatura que se aproximava dela com uma foice na mão. O grande capuz preto escondia seu rosto. Víamos apenas uma gosma vermelha escorrendo de sua boca com dentes afiados que perfilavam parte do queixo.

– Eu quero descer – ela falou pausadamente sem tirar os olhos da criatura.

À medida que o tal ser se aproximava Felipa ia fincando suas unhas no meu braço.

– Calma. Ele só quer sua alma – disse entre risos.

– Eu juro que vou te matar, garota – ela respondeu.

O carro seguiu o percurso e a criatura ficou para trás. Respiramos aliviadas. Passados mais alguns sustos o veículo parou e uma voz ordenou que saíssemos para continuar o trajeto a pé.

– Tá de sacanagem. Agora que nós vamos morrer com certeza – falei.

Quando descemos percebemos que os passageiros do carro da frente não estavam lá. Olhamos ao redor para ver se eles estavam por perto e não localizamos.

– Eles devem ter descido antes – falei.

– Ou alguém apareceu para salvá-los – Felipa protestou.

– Ou morreram.

– Raul – falamos juntas.

O indivíduo estava vestido com a roupa da criatura que nos recebeu no início do trajeto. Assim que tirou o capuz pudemos contemplar seus grandes olhos azuis que faiscavam de raiva.

– Bem-vindas – falou despejando um saco à nossa frente com partes de um corpo humano.

– Seu sequelado. A brincadeira acabou – falei séria.

– Está apenas começando – ele riu.

Logo apareceu outra criatura com uma corda nas mãos. Provavelmente um de seus fiéis escudeiros. Felipa estava apavorada com a situação.

– Vocês não querem ficar juntinhas – ele falou com desdém.

– Seu doente. Imbecil – falei com raiva – Vamos sair daqui.

Assim que demos as costas a corda nos alcançou. Felipa e eu caímos sentadas no chão. Tentamos nos desvencilhar, sem sucesso. De repente sentimos um líquido quente e viscoso cair sobre nossas cabeças.

– Que porra é essa?

– Tábata, precisamos sair daqui. Não me sinto bem.

Raul gargalhava enquanto pegava uma caixa no chão.

– Isso é pra vocês aprenderem como se brinca – ele falou.

Ao abrir a caixa alguns ratos saíram e vieram em nossa direção. Começamos a gritar e nos debater. Os animais aproximavam-se como se estivessem atraídos pelo líquido que nos cobria. Nossos gritos não foram o suficiente para afastá-los. E logo eles estavam subindo em nossas pernas até que começaram a nos morder.

– Raul, faz isso parar – implorava Felipa.

– Parar? Você vai se arrepender por aquela humilhação. Sua piranha.

– Torça pra eu morrer, seu vagabundo. Porque assim que eu sair daqui a primeira coisa que vou fazer é arrancar cada pedaço do seu corpo com minhas próprias mãos – ameacei.

– Sombra, silencia a sapata pois a voz dela está me incomodando – Raul deu a ordem ao comparsa que bateu com força na minha cabeça, me fazendo perder os sentidos.

Ao acordar estava acorrentada numa barra de ferro e Felipa estava nua e desacordada à minha frente, sentada numa cadeira. As mãos estavam amarradas para trás. Seu rosto estava machucado. Não havia sinais da dupla de psicopatas.

– Felipa. Acorda. O que eles fizeram com você? Fala comigo.

As luzes apagaram e tudo ficou no mais absurdo silêncio. Eu ouvia apenas as batidas aceleradas do meu coração.

– Felipa?

– Ela não vai te ajudar, sua piranha – a voz de Raul invadiu o lugar acompanhada de chutes e pontapés. 

As luzes acenderam novamente e percebi que estávamos numa grande sala com espelhos. Felipa acordou e quando percebeu os espelhos ficou histérica. Raul ria em êxtase com toda aquela cena. Aproximou-se dela e ficou acariciando seu rosto. Em suas mãos uma tesoura reluzia. Ele passou o objeto no seu pescoço e logo desceu para seus mamilos. Ao chegar ao abdome ele olhou pra mim e riu sarcasticamente. 

– Furo ou deixo essa vadia sofrer mais um pouco?

O olhar de Raul estava transtornado. Ele segurou os longos cabelos de Felipa e desferiu vários golpes cortando várias madeixas enquanto ria. A menina entrou em desespero. 

– Pode trazer nosso brinquedinho – ordenou ao comparsa.

Sombra surgiu com uma serra elétrica e aproximou-se de mim com o objeto ligado. O barulho era apavorante.

– Vocês vão pagar por isso – falei.

O que eles não imaginavam é que eu estava quase livre das correntes esperando um momento certo para agir. Como a gosma que estava sobre meu corpo grudou em mim, fui fazendo movimentos leves até que as correntes saíssem. Como não sabia onde estava o outro maluco, minha fuga poderia ser surpreendida por ele. Por ironia do destino assim que ele se aproximou, enquanto brincava fazendo movimentos no ar escorregou na gosma e caiu sobre a serra elétrica ligada, espalhando vísceras por todo o local num banho medonho de sangue e tripas, permitindo assim minha libertação.

– Que merda é essa, Sombra?

Raul correu para perto tentando entender o que estava acontecendo e foi surpreendido por mim. Peguei a serra no chão e parti pra cima dele. De primeira decepei sua mão direita.

– Essa mão nunca vai receber a honra de ser noivo da Felipa, seu desgraçado.

Ele urrou de dor e caiu no chão. Corri pra libertar Felipa que estava com um olhar sombrio. Assim que ficou livre das cordas pegou a serra elétrica das minhas mãos e partiu num surto pra cima do ex-namorado.

A menina cortou seus pés e a outra mão. Raul se debatia no chão em agonia. Logo os ratos da sala anterior apareceram e começaram a comê-lo vivo. Num toque de insanidade ela pegou a tesoura que estava caída ao lado dele e abriu um rasgo em sua barriga, atraindo ainda mais ratos para cima do corpo.

– Agora você conhece os demônios que habitam em mim, Raul –  disse ela me abraçando enquanto saímos da sala de horror. Mais tarde descobrimos que o parque era da família do amigo de Raul. Por isso ele teve livre acesso e arquitetou tudo aquilo sem ser interrompido. O circuito de câmeras interno estava ligado e nós duas fomos inocentadas por legítima defesa.

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